MORTES EM SANTA MARIA: UMA TRAGÉDIA ANUNCIADA

Santa-Maria-Kiss

O Brasil está de luto. De novo. Vivemos de tragédias. A principal causa de mortalidade em nosso país entre os jovens é por acidentes e causas externas, o que inclui homicídios. Há alguns dias, mais de 230 jovens foram assassinados em Santa Maria. Fatalidades e acidentes ocorrem por acaso, por obra do destino, pelo imprevisível. Não foi o caso. Quem permite e concorda com um show em local fechado com mais de mil pessoas — o que estaria acima da capacidade do local –, sem saídas de emergência, está, no mínimo, assumindo o risco de haver sérios problemas. Em outras palavras, mortes. Foi o que aconteceu. Cabe agora à polícia, identificar os culpados e à justiça, condená-los. Isto não irá diminuir a dor das famílias enlutadas e nem trará os entes queridos de volta, mas punições exemplares poderão inibir novas ações irresponsáveis e criminosas. A apuração começou mal, contudo. Diversos jornalistas fizeram imagens do interior de um local que deveria estar isolado para ser periciado.

Foi amplamente noticiado que o alvará de funcionamento da Casa estava vencido. E algum dia ela teve algum concedido? Quem concedeu? Segundo entrevista do comandante dos bombeiros, quando foi concedido, tudo estava em ordem. Como assim? Havia saídas de emergência que simplesmente desapareceram? Casas desse tipo deveriam ter várias saídas de emergência que não se confundem com saídas normais. Elas também devem ser de fácil acesso, estar distantes da entrada e bem sinalizadas. As instalações dotadas de equipamentos de combate a incêndio tem detectores de fumaça e sprinklers — aquelas torneirinhas de água que ficam no teto e automaticamente são ligadas quando há aquecimento no local. Custa caro? Custa. Mas quanto vale a vida humana? Acima das normas, há o bom senso e a responsabilidade. Como são feitas estas vistorias? Como são concedidos os alvarás? Dentre os indiciados, deveria estar o “jeitinho brasileiro”. É curioso. Hoje, diversas cidades anunciam que fiscalizarão casas noturnas. Elas não vinham sendo fiscalizadas?

Aliás, seria bom que estes oficiais dos bombeiros parassem de falar na mídia, sobretudo se não tem nada a acrescentar. É deprimente vê-los defender o indefensável e arrastar a corporação para uma crise de imagem.

O socorro foi caótico. O princípio básico de gerenciamento de crises prevê que a área seja isolada, seja feita a contenção, o socorro e a comunicação. Nada disso aconteceu. Não importa o que digam. Nós vimos as imagens de TV e celulares amplamente divulgadas na internet. Não havia isolamento. Jovens se misturavam ao socorro dos bombeiros, de forma desesperada, para agir no intuito de ajudar seus amigos. Estavam agindo por heroísmo. Mas, para que heróis surjam, o sistema deve falhar. E falhou, feio. Vários destes voluntários, sem treinamento, foram expostos ao calor e à fumaça. Não havia bombeiros suficientes na cidade? Santa Maria possui Brigada Militar, quartéis do Exército e da Aeronáutica. O socorro do SAMU e dos bombeiros deixou claro que não foram adotados os conceitos mais elementares do sistema de comando de incidentes. O despreparo era evidente. Não havia triagem. Não havia coordenação. Vítimas eram colocadas em ambulâncias sem qualquer assistência. SAMU não é táxi e se aquelas pessoas não estavam mais vivas, não podiam estar em ambulâncias. Não sou eu quem está dizendo, as imagens mostraram. A cidade não possui um Plano de Desastres? Se possui, por que não foi utilizado? Aliás, tem alguma que possui?

O velório está organizado, dizem as autoridades. Não era para ter velório. Não era para jovens terem morrido. Este é o momento em que os responsáveis, diretos e indiretos, buscam esquivar-se e arrumar desculpas para o ocorrido. Poupem as famílias de tanto desrespeito e descaso.

Esta não é uma crítica a nenhum governo, pois encontramos os mesmos problemas em todos estados. A questão é cultural. Autoridades insistem em dizer que suas cidades estão preparadas para desastres. Não estão. O que aconteceu em Santa Maria pode acontecer em qualquer outra cidade. Não por fatalidade, mas por irresponsabilidade. Infelizmente não podemos voltar ao passado, mas podemos trabalhar com algo que o Brasil ainda desconhece: a prevenção e a preparação e quem sabe evitar a dor de outras famílias no futuro. O Brasil deve isto em memória a todas as vítimas, que foi incapaz de evitar….

*Luiz Henrique Hargreaves é médico e graduado em Gestão da Segurança Pública, pós-graduado em Defesa Civil e Emergências e Desastres, além de ser professor universitário na área de Gerenciamento de Crises.

Anúncios