MANIFESTO: Como olhar e pensar o futuro da moda brasileira

 

“O Brasil é a bola da vez”. De tão perpetuada, a frase virou realidade. O boom de grifes de luxo que chegaram por aqui é prova de que o país é um território que vale a pena ser conquistado. Valia, passado.

 

Esse ótimo momento se deu por conta da economia brasileira. A classe média aumentou seu poder de compra, o que cresceu os olhos do mercado internacional. O momento passou. Brasileiros estão cada vez mais endividados, como relatam, semanalmente, os veículos de comunicação. O PIB brasileiro de 2012 tem o fraco crescimento 1,5%, com o adicional indiscutível de que o Brasil parou de receber investimentos.

 

Com a invasão gringa, as perguntas: “Onde entra o produto nacional que compete no varejo?”; “Cadê o design brasileiro capaz de destacar-se no meio de grifes internacionais centenárias?”.

 

Tudo bem que a maioria dos brasileiros não pensa em inovar na hora de se vestir ou, de repente, ir em busca daquela peça de corte perfeito — até porque ela não terá preço suave. Sabemos que moda no Brasil precisa ser massificada para que seja absorvida pelas redes de shopping centers e multimarcas. Sim, escolhem o que vamos querer baseado, de maneira geral, em popularidade.

 

Desculpa, fashionista. Quem movimenta a moda brasileira não é você e sim quem deseja o que a protagonista da novela ou a atriz de Hollywood usa. Todos os detalhes desses figurinos são re-noticiados por uma coisa que mudou a moda, chamada internet.

 

Há tempos, jornalistas de moda e blogueiros do nicho reclamam da falta de novidades nas maiores semanas de moda do país — São Paulo Fashion Week e Fashion Rio, respectivamente. A razão para essa ‘estagnação’ tem a ver com a massificação exposta no parágrafo anterior…

 

Na condição de um dos países que mais forma designers de moda, é interessante se questionar: “Para onde vão todos esses novos profissionais que chegam ao mercado de trabalho ávidos por criar (algo novo)?” A demanda que existe é para o comercial.

 

Fast-fashion. Isso movimentamos muito bem. Semanas atrás, a Riachuelo lançou a coleção de verão 2013 em parceria com a *Daslu, marca símbolo do luxo nacional. 10% das peças foram vendidas no primeiro dia, mas em algumas lojas o número chegou a 30%. Abrangente, a coleção tem moda para homens, mulheres e crianças por até R$ 250 — o preço médio de um item Daslu é de R$ 500.

 

Ainda comigo? Nunca, na história desse país — parafraseando Lula (não resisti) — se viu tanta parceria fashion. Nada é por acaso. As parcerias são uma forma de sobrevivência para moda nacional — sem muita criação envolvida, é verdade — mas sobrevivência.

 

A internet mudou tudo. Com ela veio a informação de moda. As pessoas querem se sentir autênticas ou mandar uma mensagem ao mundo pelo que estão vestindo. Sabem da qualidade do produto que comprar e, principalmente, se aquele item é uma cópia/releitura do que foi desfilado na última temporada de Paris… Por conta dessa velocidade e democratização da informação fashion, existe a teoria de que, no futuro, existirão apenas grifes de luxo e redes de fast-fashion, o que estiver no meio será eliminado.

 

A Osklen, por exemplo, com a venda para o Grupo Alpargatas, trilha seu caminho para tornar-se a primeira marca brasileira de luxo, intensificando seu processo de internacionalização. Esse é o caminho.

 

As principais semanas de moda no Brasil diminuíram. Proporcionalmente, programas que incentivam novos talentos. Eventos como Prêmio Rio Moda Hype, no Rio, e Casa de Criadores, em São Paulo, servem apenas como vitrine do trabalho de seus participantes. Precisamos de incentivo financeiro, do governo talvez, para programas que foquem em planejamento de business, um suporte mais abrangente, de 360 graus…

 

Do que vale todo o esforço iniciado — principalmente — na década de 80 para que o Brasil tenha cultura de moda e identidade única perante o mundo se o made in brazil não consegue competir em território próprio? Morrer na praia não pode ser uma opção. Não renovar-se significa que o ciclo está incompleto. A criação tem que chegar às ruas, caso contrário seremos engolidos e, consequentemente, digeridos. NADA DE SER O MEIO.

 
 

*Comprada há dois anos pelo grupo Laep, em 2012, a Daslu fechou o prédio Villa Daslu e abriu cinco lojas – duas em São Paulo, uma em Ribeirão Preto, uma no Rio e outra em Brasília. Todas em shopping.

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