Entrevista – LUCAS MUTINELLI

“Ainda nem tenho bigode direito”. A segunda frase de Lucas Mutinelli (GLAM) pra mim surpreendeu. Por quê? O modelo é um dos poucos que saíram de Brasília e podem acrescentar o adjetivo ‘internacional’ ao nome da profissão. Pelo “não tenho bigode”, o rapaz queria me explicar que estava na cidade para concluir seu ensino médio.

Mutinelli tem apenas 18 anos e um currículo que inclui trabalhos para as marcas Vivienne Westwood, Dsquared2, Dirk Bikkembergs e Victor Cool.

Entrevistei o rapaz depois de produzirmos o editorial masculino para a segunda edição da Revista Taguatinga Shopping, assinado pela Márcia Rocha do site de moda masculina Mistermag.

BZ: Oi, Lucas. Você é natural de Porto Alegre (RS) e foi criado em Brasília. Me conta o início da sua história como modelo.

LM: Começou pelo Orkut. Me viram na rede social e me convidaram para conhecer a agência. Na época, estava acontecendo o concurso Supermodel Of the Word e tinha uma equipe da Ford Models em Brasília. Fui meio que aprovado, mas não consegui por conta da minha idade [14 anos]. Eu era considerado muito novo para trabalhar em São Paulo.

E agora? Por que você está em Brasília?

Fiquei um ano e dois meses fora do País. Trabalhei na SPFW e Fashion Rio [Verão 2013], mas voltei apenas para concluir meus estudos — como prometi à minha mãe: ao completar 18 anos, terminaria o ensino médio.

Então sua intenção não é abandonar o trabalho de modelo…

Sim. Pretendo voltar em janeiro, ou assim que der. Meu foco é retomar minha carreira fora do Brasil…

Me lista os lugares que você conheceu pelo seu trabalho.

Comecei por Paris e Milão, essa foi a minha primeira viagem com 16 anos; depois China, Londres e Milão novamente.

Milão foi o lugar que fiquei mais tempo e por isso conheci melhor o mercado e, conseqüentemente, me tornei um rosto conhecido pelos clientes…

E quais são os trabalhos que você considera como ‘os mais bacanas’?

Desfile da Dsquared2; a campanha da Dirk Bikkembergs, que é uma marca local de Milão; o lookbook/catálogo da Victor Cool com vídeo para internet; e, em Londres, acabei fazendo a campanha da Vivienne Westwood Acessories.

Essa campanha para Vivienne te abriu mais portas?

Com certeza. Quando você faz um trabalho para uma grande marca, isso criar visibilidade para que outros profissionais da área prestem atenção em nós modelos. E isso representa uma evolução dentro da carreira: a cada dia, melhores trabalhos; com pessoas ainda mais profissionais…

A temporada de Verão 2013 foi a sua primeira em território nacional. Você foi um dos rapazes que mais trabalhou no Fashion Rio. Me explica o porquê desse caminho inverso… Começar a modelar no exterior…

Acredito que tudo seja uma questão de visão. Pra mim, aqui no Brasil, é difícil se destacar. Não gosto de falar isso, mas todas as agências tem seus modelos preferidos, que de repente nem conseguem trabalhar tanto. Então existe uma espécie de fila. Você entra para agência e tem que esperar o momento que vão querer te vender. No exterior, querendo ou não, você é um gringo no país deles e isso já é um diferencial, apesar da concorrência ser maior…

Ser modelo me possibilitou viajar e agarrei essa oportunidade. Já morei em São Paulo também e não me rendeu muitos trabalhos. Minha vontade era modelar de verdade, porque fora do País modelo é profissão e aqui, no Brasil, é… apenas um hobby.

Li que o Sean O’Pry [#1] conquistou o topo da carreira em apenas 2 anos e meio. Isso é rápido e para poucos. Como você vê essa corrida pelo sucesso? Como é possível destacar-se na multidão?

Tem o fator sorte, com certeza. E como você falou, dois anos é pouco tempo, mas dependendo de ‘como e onde’ você começa sua carreira, também pode ser considerado um longo período.

Eu vejo que entre os brasileiros é uma guerra. Antes de conseguir aquela campanha internacional, o brasileiro tem que ficar cerca de um ano nos Estados Unidos ou Europa longe da família e sem falar sua primeira língua, além de lidar com todas as barreiras culturais… É mais fácil para um modelo europeu local, por exemplo, conseguir trabalho — até pela facilidade de deslocamento para castings… Em duas horas você consegue atravessar três países.

Então, pra mim, é sorte; manter-se em forma e acreditar em si mesmo. Ter autoconfiança para chegar nos castings e fazer os clientes gostarem de você.

E a transição cultural? Me conta curiosidades…

Na Europa foi bem tranquilo. A primeira vez que eu fui já conseguia me virar bem no inglês. E em questão de pensamento e convívio, é muito mais fácil do que na Ásia, por exemplo. Italiano é fácil de aprender e o francês, por ser uma língua latina, é parecido com o português.

Na China tive que me adaptar. Ninguém falava inglês no meu condomínio, por exemplo… Comida foi bem complicado porque lá eles tem o hábito de comer coisas meio esquisitas… cuspir no chão…

E você acredita que cresceu como pessoa com essas experiências?

Com certeza. Quando você mora com seus pais tem outra percepção de mundo. Nas primeiras dificuldades você já percebe que é o único responsável por achar uma solução…

Tipo qual? Me dá um exemplo de ‘perrengue’ que você já passou.

Eu estava na China e meu visto tinha vencido. Precisava ir a Hong Kong — duas horas de trem — para tentar conseguir o visto e voltar. Tudo no mesmo dia.
Uma vez, não consegui fazer isso. Fiquei em Hong Kong por três noites com a ‘roupa do corpo’, sem computador, sem carregador de celular, sem nada… E tive que me virar. Claro que meus pais me ajudaram aqui do Brasil, mas eu que estava lá e tive que me virar… Lição de vida, né? Experiência.

Sim, total. E quais conselhos você daria para quem deseja seguir a carreira de modelo?

• Paciência (muita paciência);

• Pé no chão. Não se deslumbrar com promessas. Eu só acredito vendo, então, além de prometer, tem que acontecer.

• Sempre acreditar em si mesmo. Não deixe ninguém te colocar pra baixo, até porque é uma profissão em que a pessoa é o produto.

• E foco. Sempre seguir essa meta, até porque, nada é/foi fácil na vida de ninguém. Manter-se focado ajuda muito na carreira.

Beleza. É isso. Brigado [nós damos um aperto de mão]

Brigado [risos]

*Em tempo, Lucas está com viagem marcada para a edição de Inverno 2013 do Fashion Rio, que começa nesta quarta-feira 7 de novembro. Nós do BLOGAZINE desejamos mais recordes nesta temporada, claro!

Imagens©Bruno Santos/BLOGAZINE e Reprodução

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