Entrevista ParkFashion Connection: WALTER RODRIGUES

A segunda edição do ParkFashion Connection (18 e 19 de setembro) foi anunciada como especial. Um dos motivos é uma homenagem aos 20 anos da marca Walter Rodrigues com exposição e desfile retrospectivo.

É que o estilista que dá nome à marca anunciou, semanas atrás, sua aposentadoria das passarelas para se dedicar ao trabalho de consultoria. A notícia representa grande perda para moda brasileira, pois o design de Walter sempre mereceu destaque por sua originalidade e referências orientais, sempre pensado para um guarda-roupa de uma mulher clássica e elegante, mas com um twist.

Exposição ‘Walter Rodrigues – 20 anos’ tem curadoria de Mariza de Macedo-Soares
e cenário de Theodoro Cochrane

Conversei com o designer momentos antes do seu desfile no Espaço Gourmet do mall. “Momentos antes” significa TPD (Tensão Pré-Desfile), que durante a entrevista consegui uma pequena amostra da exigência por excelência que Walter tem no backstage de suas apresentações…

Bruno Santos: Oi, Walter. Queria começar pelo critério usado para montar um desfile especial como esse?

Walter Rodrigues: Quando o Jackson [Araujo] me fez o convite, a ideia era trabalhar junto com a Mariza de Macedo-Soares – curadora da exposição que permanece no shopping ainda esta semana. Nós três buscamos dentro das minhas coleções o que mais amávamos – o que mais tínhamos recordações, memórias, lugares onde elas tenham sido desfiladas e todas essas impressões que ficaram em nosso olhar.

Determinamos 25 looks, então tem cinco coleções: cinco looks de cada coleção.

Walter comentando sua exposição com a gerente de marketing do ParkShopping Natália Vaz

Por que você decidiu fazer seu último desfile em Brasília?

Na realidade, Brasília foi o primeiro lugar que eu *vendi minhas roupas, minha primeira coleção.

Encontrei o Jackson por “esses aeroportos da vida” e ele me disse que adoraria fazer uma exposição dos meus 20 anos de carreira com a marca Walter Rodrigues. Isso sem saber de nada ainda….

A intenção dele era fazer a exposição e, de repente, um pequeno desfile. Foi aí que eu abri o jogo e disse que poderia ser um grande desfile…
E isso foi uma coisa determinante pra mim porque eu tenho uma boa relação com a **Multiplan – em São Paulo somos muito amigos e tem ainda a história do Morumbi Fashion, então sempre fui muito próximo do marketing da empresa.

Pra mim, juntou as coisas que eu mais queria: Jackson (um amigo muito querido(; Mariza (outra amiga de muitos anos) ; Brasília e a oportunidade de fazer uma despedida bonita, com categoria… Com classe [ele ri].

Como você resumiria o desfile em três palavras ou menos?

Atemporal.

Pra mim é muito interessante porque eu tenho estudado muito o meu arquivo – porque estamos mexendo nisso: guardando e revendo todo ele. Depois você pode ter a sua opinião sobre isso… Muitas das roupas podem ser usadas hoje, tendo sido feitas em 1999, 2000, 2001, 2002 e 2007 [respectivamente]. É bem interessante por ter essa coisa da atemporalidade e você percebe o meu desenho, o meu traço em tudo isso.

Posso fazer algumas perguntas curiosas?

Pode.

No caso de um incêndio na área do backstage, qual dos looks do desfile você salvaria?

Acho que eu morreria grudado em todos eles [nós dois rimos].

Looks do desfile de despedida, pensado especialmente para o #PFC

Assisti sua palestra sobre fast fashion em Goiânia. Na época, mal sabia que seu objeto de estudo é um dos motivo para você fechar a sua marca…

Não, não estou fechando por causa do fast fashion. Acho que as pessoas estão enganadas sobre isso. O que eu tô cansado é do varejo que não sabe mais trabalhar. E também da história dos conglomerados de luxo que não tem nada a ver com o fast fashion, mas sim a concorrência de marcas muito poderosas que tem dinheiro para mídia [marketing] e para uma boa distribuição de produto. Tudo isso os brasileiro não tem. Então – eu que estou cansado dessa desigualdade – é melhor sossegar e ficar quieto…

Acho o fast fashion uma democracia muito importante. Agora, a vinda da Prada, Gucci – tudo isso que vieram… – abalou o mercado de luxo, do qual eu pertenço. O varejo não sabe lidar com essa situação e nem os lojistas, quiça os designers que dependem dos lojistas. Pra mim é a hora de terminar do jeito certo.

Qual a data exata de sua decisão?

Eu estou trabalhando nisso há um ano e meio. O último desfile que foi em janeiro passado [Fashion Rio de Inverno 2012] eu tinha a clara noção na minha cabeça que ele seria o último…

Desfile Walter Rodrigues, Inverno 2012, Fashion Rio

Existe muita burocracia para se fechar uma marca?

É muito chato porque é uma empresa… Como uma empresa qualquer…

Mas a marca em si não fecha: continuo produzindo coisas – vestidos especiais sob encomenda. Só não quero fazer coleção e não quero ver lojista. Meu problema é o varejo.

Você é de sagitário, que são famosos por serem aventureiros e se jogarem no desconhecido. Essa é uma boa definição para sua nova fase de trabalho?

Sempre valorizei aquilo que eu sinto. Se eu não estou feliz, posso estar onde eu estiver que vou embora.

Exaltar o ‘Made in Brazil’ é parte do seu trabalho como consultor. Como você vê a competitividade das grifes de luxo, redes de fast fashion em relação às marcas brasileiras? O que falta?

Tenho falado muito a frase de um antropólogo italiano [Walter não lembrou o nome e minhas habilidades no Google não foram favoráveis] que diz que se nós fizéssemos pela moda o que os profissionais brasileiros fizeram pela música nacional, formaríamos líderes. Porque usamos instrumentos europeus e toda tradição de quem faz música, mas quando você escuta uma ‘Garota de Ipanema’ você sabe que é uma obra brasileira.

A moda também se alimenta de lições centenárias, mas aqui no País ela não consegue dar esse teor e essa possibilidade de um olhar brasileiro, então acaba sendo uma mera cópia.

Haider Ackermann

Você tem algum jovem estilista favorito no momento?

Melk Z-Da no Brasil… Jack McCollough e Lazaro Hernandez (Proenza Schouler) nos Estados Unidos, Peter Pilotto em Londres e Haider Ackermann junto com Rick Owens em Paris.

Se fôssemos filmar um curta-metragem sobre a sua carreira, quais momentos não poderiam estar de fora na hora da edição?

A correria de um backstage. Eu sou absolutamente escorpiano, que é o meu ascendente. Eu quero ‘matar um’ a cada minuto por conta das falhas. Eu prefiro fazer do que deixar na mão das pessoas – isso é terrível.

Em ação no backstage…

Quem foi a última pessoa que você brigou?

Hoje dei uma bronca na passadoria.

Por quê?

Porque estava mal passado [um tom acima]. Não estava exatamente como tinha que ser.

Voltando ao curta, quem você escolheria como diretor?

Humm…. Pode ser qualquer um no mundo?

Cineasta Spike Jonze: Quero Ser John Malkovich (1999), Adaptação (2002),
Onde Vivem os Monstros (2009)…

Pode

Spike Jonze

E a música para os créditos finais?

“Unfinished Sympathy”, do Massive Attack.

É isso. Muito obrigado pelo seu tempo, Walter.

Brigado você. Foi um prazer, Bruno. Bom te ver…

Imagens: Bruno Santos/Reprodução

* A compradora visionária foi Cleuza Ferreira, empresária da multimarcas Magrella
** Empresa de shopping centers da qual o ParkShopping Brasília faz parte

Anúncios